sábado, 24 de outubro de 2009


O momento mais libertador da minha vida foi em Londres,(…) estava eu a trabalhar numa loja de vinhos(…). Era um emprego de férias mas eu gostava de trabalhar lá. Sempre gostei de trabalhar rodeado por garrafas, é verdade. Mas o gerente era simpático e os clientes, sendo pessoas que não eram cegamente contra um copinho ou dois, também.
Um dia, às duas da tarde aparece lá o Chico Sande e Castro, que eu já não via há um ano. “Embora aí almoçar”, disse ele. O Chico, sendo um aristocrata, porta-se sempre como se estivesse em casa, em Portugal.
Como na Inglaterra não é costume ir-se almoçar às duas da tarde e eu já tinha gozado, há meia-hora atrás, o meu “lunch break” de meia-hora, fui ter com o gerente da loja e perguntei-lhe se podia saír durante uma hora e meia, para ir almoçar com este grande amigo meu que eu já não via há muito tempo.
O gerente explicou-me que não podia deixar-me sair porque ele estava aflito a escrever um relatório urgente e não havia mais ninguém para atender os clientes. Compreendeu e ficou com pena mas não podia deixar-me sair,
sorry.
O Chico disse “deixa lá, pá – eu apareço cá noutro dia”.
Só que ele estava a estudar em Brighton, no Sul da Inglaterra e eu estava em Manchester, no Norte e só por uma feliz coincidência é que estávamos os dois em Londres.
Para mais, estava um dia de sol.
Tirei o avental e disse ao gerente que ele é que tinha de desculpar, porque eu ia mesmo almoçar como o meu amigo. A conversa simpática rapidamente degenerou até o gerente anunciar-me que, caso eu saísse da loja, ele despedir-me-ia.
Aqui já o Chico se sentia mal por ter provocado esta situação e dizia “Ó pá, vamos antes jantar então, eu passo por cá.” E foi aí que ocorreu o momento libertador. E as três palavras mágicas foram “Que se lixe”. Despedi-me eu do gerente, agradecendo-lhe a maneira como sempre me tratou, e fui almoçar com o Chico. Durante os primeiros passos, enquanto o Chico ria-se e repetia “Este gajo é maluco!”, eu senti crescer-me na boca o maior sorriso que alguma vez tinha sorrido.
Percebi que a felicidade também se pode roubar. Eu tinha roubado um almoço com o meu maior amigo.
A grande alegria é descobrirmos que, em larga medida, somos nós os autores das nossas vidas. Podemos ser mentiroso; podemos ser tarados sexuais; podemos ser alcoólicos; podemos fugir dos problemas; podemos ser sempre frívolos; ou tristes.
Podemos ser inconsistentes. Num dia podemos ser pessoas de confiança e, no dia seguinte, não. E se, por acaso, quisermos ser boas pessoas, temos o grande prazer de sermos bons porque fomos nós que decidimos ser assim. É essa a liberdade que antecede todas as outras. Muito antes de haver liberdades oficiais, já os seres humanos podiam ser egoístas ou rancorosos. Antes de haver liberdade de expressão, qualquer pessoa podia dizer o que lhe apetecesse. Mesmo que o matassem depois, a coisa tinha sido dita e tinha sido ele a decidir dizê-la.
As pessoas esperam de nós que sejamos sensatos e saudáveis e bondosos. Mas isso é apenas o que eles querem; é um desejo; é uma opinião.
Mas, por muito sentido que faça, nós não só não somos obrigados a viver como eles querem, como somos livres de fazer o que quisermos.
Se as pessoas são nossas amigas aguentam-nos como nós somos e aceitam que não batemos bem as bolas e que fazemos merda.
A libertação daquele momento em Londres não foi estar-me nas tintas para aquele emprego: Foi ter podido escolher. As consequências do nosso almoço foram uma ninharia comparadas com a alegria que me trouxe.
Quase trinta anos depois, vivemos os dois em Portugal e quantas vezes vamos almoçar? Uma ou duas vezes por ano. E não é só o Chico. Tenho mais cinco grandes amigos, a começar pelo meu irmão, que quase nunca vejo.
A culpa é mais minha do que deles – embora eles também se aproveitem um bocadinho para se baldarem mais um pouco. Há um deles – O Pedro Rolo Duarte – com quem não vou almoçar só com enorme trabalho: mediante dúzias de mails a marcar, desmarcar e remarcar.
A moral da história não é que devíamos passar mais tempo com os amigos – claro que sim. Não, a moral é que os amigos continuam amigos apesar de quase nunca estarem juntos.
Porque os meus amigos aceitam a minha maneira de ser e de me comportar tal como eu aceito as maneiras deles. Não gosto; não compreendo; às vezes fazem-me raiva; às vezes entristecem-me; às vezes chocam-me. Mas que remédio tenho eu senão o azar de me terem calhado aqueles sacanas como amigos?
Foram esses os sacanas que me caíram no goto; é com eles que me divirto. Alguns até são boas pessoas, para que não se pense que só gosto dos sacanas.
Escolhemo-nos uns aos outros e, de um momento para o outro, podemos deixar de ser amigos. Sem essa liberdade; sem essa tristeza a pairar sobre a nossa amizade, a amizade ficaria vazia.
Continuamos a ser amigos mais o mais importante é que continuamos a querer ser amigos, porque é o que nos apetece. Almocemos ou não almocemos. A vontade de irmos almoçar, um dia destes, chega-nos perfeitamente. Não é uma expressão oca. Queremos mesmo ir almoçar um dia destes.
E isso é lindo, porque é livre.
Texto de Miguel Esteves Cardoso
in Playboy, Outubro 2009.


Roubei este texto que adorei de um blog amigo, vizinho.
Fez-me sorrir. Fez-me sentir livre. Eu tenho a sorte de ceder estas escapadelas constantemente. De saltar por cima do balcão de me escapar ao trabalho para fazer um piquenique a meio do dia ou comer gelado num dia de chuva, são momentos fugazes com amigos. Não importa nada se trabalho 16h por dia, ou se chove ou se corro para o ginásio ou para o curso. Quando nos move o prazer pelo que fazemos, rodeamos de pessoas de quem gostamos e nos apoiam, nem que seja a pregar um cortinado, sobreviver ao ataque do homem do gás ou na descoberta de um restaurante novo, de um sabor diferente.
Medo? Claro que sim, sempre fui uma menina assustada com a própria sombra e contudo desesperadamente arrojada e metida em aventuras :) enigmático? Certamente. Que importa isso, não temos de fazer sempre sentido, isso é para a literatura.
Gosto de encontros inesperados, desafios, sorrisos cúmplices, segredos e estar horas com amigos.
Gosto de me sentir bem e livre.


sábado, 11 de julho de 2009


Eu queria alguém para amar,

que viesse de noite e inaugurasse o futuro
arrombasse as portas e o vagar.
Um nome para sussurar
em lugar da procura
um beijo que rasgasse o peito
deixasse memória e vida.

Eu queria saber que valsa é esta
que roupa devo usar no lugar do corpo.
Que é isto do amor?
quem inventou os gestos salgados,
as promessas e os voos?
E depois de tantas perguntas, do pensamento revolto
baixo os braços sobre mim
apertado de dor talvez,
das respostas que não encontro...
da enormidade dos porquês....

sábado, 4 de julho de 2009

Viemos de Lisboa entre conversas ligeiras, muitas sms's (cheguei à conclusão que os miúdos as usam como quem usa o messenger) e algumas tropelias e risos. Choveu a meio da viagem, o parabrisas avariou. Chegamos bem dispostas e alegres. Tomamos banhoca e jantamos. Saimos a dar uma voltinha pela cidade e acabamos no shopping

de pois de nos perdermos no meio de tanta rotunda! Optamos por lhes dar um nome e já vai numa lista grandinha: Hello Kitty, Arte, Bússula, Chafariz, Cena (porque bão fazemos ideia que raio seja a figura que tem no meio :P) Vimos a Idade do Gelo III que é hilariante no meio de um balde de pipocas gigante e de uns óculos 3D fixolas.


Hoje, Sábado, depois do pequeno-almoço resolvemos adicionar mais um elemento à nossa dupla e fomos a S. pedro do Sul buscar uma amiga da Filipa, a Filipa. Pelo menos é fácil de fixar hihihi.
Demos uns belos mergulhos na piscina, almoço, voltinha de comboio pela cidade a uns 13km/h :D jogamos à bola (perdi 5-10 contra elas) jogamos às cartas e voltamos para a piscina para onde vamos agora :)
Mais memórias amanhã ou logo.
Isto de ser tia é uma descoberta difícil (tentem ter assunto com uma adolescente de 16 caladinha), mas muitoooo gira.
A família faz parte do nosso equilíbrio e os mais novos dão-nos uma grande noção de laços e importância da nossa presença e influência nas suas vidas.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ordinary things

A vida é feita de pequenos momentos normais, sem magia.

Eu sou uma fã incondicional da beleza, mas descobri ultimamente que a beleza tal como a magia, não advém de nos contarmos uma história, nem uma versão alterada da realidade, mas sim de vermos a realidade de um ponto de vista positivo e construtivo.
Assim, a meio de nada, num banco de jardim, num email, num vestidinho, num balde de pipocas, numa conversa intimista, numa saladinha ou numa sopa simples, descobre-se o prazer de se estar bem por dentro. Sem pressa, sem correr para nos maquilharmos de uma pessoa fantástica.

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