quinta-feira, 26 de junho de 2008

Mulheres e Política

Se recuarmos no tempo até aquela que foi uma das grande referências do ocidente, a antiguidade clássica, encontramos em vários textos de pensadores a defesa da inclusão da mulher no mundo político. Os escritos de Platão remetem à necessidade de inclusão da mulher no funcionamento da pólis. Na República, lê-se que a mulher deve receber a mesma educação ministrada ao homem, qual seja, o ensino da música, ginástica e também da guerra. Preocupante é que há pouco mais de uma década, em 1995 na Plataforma de Acção de Pequim ainda se estivesse a definir como uma das prioridads a questão da mulher no exercício do poder e na tomada de decisões e a apontar medidas concretas que deveriam ser adoptadas por governos, sector privado, instituições académicas e organizações não-governamentais para que as mulheres tenham maior acesso e uma participação efectiva nas estruturas de poder e na tomada de decisões. Ao aumentar essa influência em todos os níveis da vida pública, aumentam as possibilidades de mudança em direcção à igualdade de géneros e ao empowerment da mulher, no desenho de uma sociedade mais justa e democrática.
O voto de Carolina Beatriz Ângelo nas eleições da Assembleia Constituinte, em 1911, foi o primeiro representativo das mulheres quer em Portugal, quer no contexto europeu. Este voto foi conseguido com base numa omissão da lei que não referia que o chefe de família tinha de ser do sexo masculino. Foi também disputada por Ana de Castro Osório esta tentiva de voto, mas como era casada, a possibilidade de o conseguir nem sequer se colocava.
Este acontecimento permite-nos abordar dois aspectos, primeiro que politicamente as mulheres em Portugal viveram desde o início do século passado num quadro jurídico-constitucional que não obstante ser dos mais avançados no que a este assunto diz respeito, não reflecte nem mobilização das mulheres nem o espaço dado pelos homens para a sua livre concretização. O segundo que a luta das mulheres pelo acesso à participação política, apesar de cada vez mais ténue desde os anos 90, mostra claramente uma cisão entre aquelas que têm um poder associado a um partido ou ao governo e as feministas. Em ambos os casos os traços de ideologia distintivos parecem sobrepor-se à procura de um plano global de acção que se concentre mais no resultado que no seu próprio âmago.
O desentendimento entre Ana de Castro Osório e Adelaide Cabete, por não terem a liberdade de acção desejado para as lojas maçonas, depois um trabalho assinalável feito junto dos republicanos no interior da maçonaria, veio a ser a ocorrência mais marcante desta realidade e a maior perda do feminismo e do sufragismo portugueses.
Com uma nova forma de abordagem, através da literatura, assistimos entre 60 e 70, à discussão do sentir e das realidades femininas por Maria Lamas, Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta. Também Maria de Lourdes Pintasilgo, vem dar os primeiros passos para a constituição do que se chamará mais tarde a Comissão da Condição Feminina, tendo sido a única mulher em Portugal a ocupar a Pasta de Primeira Ministra.

A estes podiamos ainda juntar os nomes de Natália Correia, Maria Isabel Aboim Inglês, Sofia de Mello Breiner, e outros mais recentes como Leonor Beleza ou Odete Santos que trabalharam para que a sociedade fosse mais inclusiva e que a representatividade nos órgãos eleitos fosse mais consentânea com a composição da sociedade.
Contudo podemos será que podemos afirmar que estas mulheres tiveram uma acção realmente marcada do seu género ou desenvolveram políticas baseadas em modos de ver e perceber a realidade distintos? Será que podemos dizer que elas alcançaram realmente os direitos que reivindicavam, como o divórcio, ou estes foram apenas concedidos, pelo interesse que o género masculino também tinha nos mesmos?Nos primeiros anos da democracia portuguesa que se seguiram a 1974, as mulheres ganharam socialmente uma igualdade progressiva como foi o direito de voto, o acesso a todas as carreiras profissionais e deixarem de depender dos maridos em diversas circunstâncias, sem ter de para isto mobilizar as organizações femininas existentes ou de encetar uma conquista dura. As alterações reflectiam finalmente o sistema sem que as mulheres tivessem que se emancipar pela força. Não quero tirar de forma alguma o valor desta evolução, o que se pretende aqui perceber é a conjuntura história que está na origem do perfil das mulheres e da sua relação com o poder e a política. A sua posição de vítima acaba por ser de uma “vítima culpada” ou seja, apesar do seu sentido agudo para rever e se envolver nas questões sociais, a verdade é que não há um poder de organização e liderança de forma pacífica e frutuosa o suficiente para fazer a diferença. Não houve propriamente movimentos de massas femininos, apenas vários grupos de mulheres como as Sufragistas, a Liga das Mulheres Republicanas ou a Maçonaria.
Acredito que o advento da mudança virá da espera privada e com a progressiva entrada da mulher nas multinacionais e nos ambientes empresariais de topo. A aculturação a uma realidade que exige constantemente negociação e pontes para chegar a objectivos concretos levará necessariamente a uma mudança de paradigma. Já não se trata de se distinguir ou de ser notável num tempo em que o poder é masculino, já não se trata de impor uma posição, uma regra, como quem dirige uma casa, trata-se de um espaço onde as valências de cada um valem tanto mais quanto mais valer o todo em que se inserem. Até aqui as mulheres distinguiam-se na medicina, no direito, na educação e noutros campos onde o génio per si valia, o desafio que agora se põe é outro, o da liderança e da estrutura.
Antes de terminar, gostaria de partilhar convosco a teoria de Kjell Nordström, guru do novo mundo dos negócios. A sua teoria chama-se Evelution e defende que dentro de 25 anos assistiremos à queda do poder do homem no mundo empresarial passando a mulher a ocupar os lugares de topo dentro das organizações. No passado a indústria, a tecnologia, exigiam força e resistência física portanto a ideia de ser o homem a liderar fazia sentido. Hoje com um computador, um comando, consegue-se gerir um império, as exigências mudaram e as capacidades exigidas a um líder também. Curiosamente o interessante de tudo isto é que a maior mudança política dos nossos tempos, dar-se-à por motivos completamente alheios à política e ao pensamento teórico, e acontecerá ascendentemente. O desafio que ai vem põe-se tanto à mulher, como ao homem que assistirá a uma mudança na sua forma de viver.
Mais mulheres em cargos de decisão não é sinónimo de mais medidas políticas promotoras da igualdade de género, mas é representativo de uma evolução social que terá implicações políticas. Como é evidente não é necessário ser-se mulher para desenvolver esta ou aquela medida em benefício de uma sociedade mais justa, o importante é que cada um de nós traga para o exercício da política nos lugares de decisão o seu legado de experiências e realidades vividas e esteja de facto disposto a vincular as suas acções à sua visão e não apenas a fazer uma colagem ao pensamento vigente. Ás mulheres já foi preciso o saber fazer, agora é preciso que saber pensar o mundo, ganhar o domínio do pensamento geo-político e estratégico que até agora foi da esfera masculina. A mulher, como disse a fotografa norte americana Barbara Kruger, “é mais”. Mais emoção, mais abragência, mais capacidade de concretizar mais coisas ao mesmo tempo. Não podemos apenas pedir mais, temos de ser mais!

2 comentários:

Anônimo disse...

Para que tudo isso seja possível, é urgente que o homem também queira ser "mais"... Em outros palcos dos quais se deixou arredar. No palco das emoções. Dos afectos. Da casa. Da família. Do palco em que se cria tempo para que a vida possa continuar a fluir. Para isso, é necessário que o homem enfrente a normalidade ancestral e descubra dentro de si aquilo que o faz feliz.
Mesmo que isso o possa fazer parecer algo "deslocado" no xadrez dos ritos sociais diários.
Sem perder aquilo que o distingue como homem. Sem achar que tem de parecer "afectado" ou um "poço de emoções" prestes a explodir.
E é precise que a mulher compreenda que há homens que já são assim. Não porque isso "pareça bem" ou seja "politicamente correcto" ou "modernaço". Apenas porque esse homem não resiste à ideia de uma Mulher que o olha nos olhos, serena e confiante, porque igual a ele. Mas ainda assim tão deliciosamente singular!

Anônimo disse...

A sábia Aretha é que sabe bem...
É preciso é coragem para se ser autêntico/a:

http://www.youtube.com/watch?v=TtNXjfaCWEc