domingo, 17 de maio de 2009

Um logro!

O post abaixo foi colocado antes do espectáculo que na prática se revelou das coisas piorzinhas que já vi e leia-se o diminutivo já como uma consideração diminuidora da apresentação (vou coibir-me de lhe chamar espectáculo).

Foi mau e diminuidor do bom que por cá se faz. Devia de haver alguma vergonha em se mostrar coisas tão amadoras e se roubar dinheiro em nome de uma coisa chamada cultura que os organizadores já devem ter ouvido falar, mas claramente não sabem o que é! 

Este episódio deu-me os meus calores que a Eça o corte de água e tal como ele me apeteceu cortar algo à organização que vendeu os bilhetes. Fica a carta do Eça, em jeito de Farpa e desabafo.

Ilus. E Exmo. Senhor Carlos Pinto Coelho digno director da Companhia das Águas e digno membro do Partido Legitimista:

 

Dois factos igualmente graves e igualmente importantes, para mim, me levam a dirigir a V. Ex.ª estas humildes regras: o primeiro é a tomada de Cuenca e as últimas vitórias das forças Carlistas sobre as tropas Republicanas, em Espanha: o segundo é a falta de água na minha cozinha e no meu quarto de banho.
Abundam os Carlistas e escassearam as águas, eis uma coincidência histórica que deve comover duplamente uma alma sobre a qual pesa, como na de V. Ex.ª, a responsabilidade da canalização e a do direito divino.
Se eu tiver fortuna de exacerbar até às lágrimas a justa comoção de V. Ex.ª, que eu interponha o meu contador, Exmo. Senhor, que eu interponha nas relações de sensibilidade de V. Ex.ª, com o Mundo externo; e que essas lágrimas benditas de industrial e de político caiam na minha bandeira!
E, pago este tributo aos nossos afectos, falemos um pouco, se V. Ex.ª o permite, dos nossos contratos. Em virtude do meu escrito, devidamente firmado por V. Ex.ª, e por mim, temos nós – um para com o outro – um certo número de direitos e encargos. Eu obriguei-me, para com V. Ex.ª, a pagar a despesa de uma encanação, e aluguer de um contador e o preço da água que consumisse.
V. Ex.ª fornecia, eu pagava. Faltamos, evidentemente, à fé deste contrato; eu, se não pagar, V. Ex.ª, se não fornecer.
Se eu não pagar, faz isto: corta-me a canalização.
Quando V. Ex.ª não fornecer, o que hei-de fazer, Exmo. Senhor? É evidente que para que o nosso contrato não seja inteiramente leonino, eu preciso, no análogo àquele em que V. Ex.ª me cortaria a canalização, de cortar alguma coisa a V. Ex.ª
Oh! E hei-de cortar-lha! …
Eu não peço indemnizações pela perda que estou sofrendo, eu não peço contas, eu não peço explicações, eu chego a nem sequer pedir água.
Não quero pôr a Companhia em dificuldades, não quero causar-lhe desgostos nem prejuízos …
Quero apenas esta pequena desafronta, bem simples e bem razoável, perante o direito e a justiça distribuída: - quero cortar uma coisa a V. Ex.ª!
Rogo-lhe, Exmo. Senhor, a especial fineza de me dizer, imediatamente, peremptoriamente, sem evasivas nem tergiversações, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito, eu posso cortar a V. Ex.ª.
 
Tenho a honra de ser
De V. Ex.ª com muita consideração
                   e com algumas tesouras
                                   Eça de Queirós

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