segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Saying Godbye

Desaprendemos que a vida acaba nos dias que correm. Com um dia a dia cada vez mais centrado na família nuclear poucos são aqueles nas grandes cidades que podem afirmar conviver com os mais velhos e com o sem número de coisas que eles têm para nos ensinar.

Os avós que me criaram já partiram os dois, contudo fica tanto do que vivemos juntos. 
O meu avô ensinou-me o valor da terra, era um homem magro de musculos secos e tez morena, queimada pelo sol. Era rígido connosco, mas tinha um sorriso generoso. Dele herdei o mau génio e a estatura.
Trabalhava numa fábrica de cortiça a fazer rolhas em máquinas rudes e perigosas, tinha as mãos cheias de mazelas que mo lembrava. Levava o farnel que a minha avó preparava numa panela embrulhada em jornal para manter a comida quente. Não trabalhava muito longe da minha escola, por isso por vezes vinha almoçar com ele sentada nos sacos de cortiça. Lembro-me que não gostava particularmente de variar e zangava-se com a minha avó quando ela mandava alguma comida diferente. Gostava de sopa de feijão com toucinho que tirava e comia no pão ( o que eu gostava daquela sopa! :) ), sopa de grão e carne de porco frita em geral. 
É certo que não era grande coisa comparada aos indíces nutricionais actuais, mas vida de campo é bem diferente desta que hoje levamos. Saía do trabalho na fabrica e ainda andava uns 10km até à fazendo no campo para regar as árvores de fruto que lá tínhamos: laranjeiras, amendoeiras, alfarrobeiras, pereiras, pessegueiros e algumas rasteiras como melancia, melão e morangos.
Aos fins de semana ia com ele, adorava vê-lo mudar o rego da água que alimentava a caldeira das árvores. Caldeira para quem não sabe é o círculo de terra feito em torno na árvore para suster a água. 
Enquanto eles regavam os dois, eu fazia bonecos de barros vermelho, molhada, roupado ao regadio, fazia barquinhos de folhas que desciam a galope daquelas pequenas ondas. Uns aninhos mais tarde comecei a apanhar fruta e a vender com a minha avó na praça.
Carregavamos camiões de melancias enormes que deixavam na roupa um pó fininho que dava comichão. Enchíamos caixas e caixas de laranjas que eram vendidas por pouco mais que o preço de custo, mas o meu avô não se importava, vivia para ver as árvores florirem e o fruto amadurecer.
Não brincava comigo, mas ocupava um lugar muito mais importante a de me dar a percepção das coisas importantes da vida que exigiam conhecimento, espera e sacrífio. Eram tempos difíceis, mas salutares, passados pelos campos, sempre com arranhões nos joelhos e km para andar até chegar a qualquer lugar. 
Conto-te isto hoje meu amigo porque te quero bem e sei que na tua dor relembrarás os bons momentos passados com o teu avô. A dor e a perda física são um golpe duro, mas lembra-te que é na herança que tu és e nos herdeiros que hás-de ter que a sua história e o amor que te deu viverá.

1 comentários:

Peter Pan disse...

Obrigado por teres ido remexer no baú das tuas recordações para as pastilhares connosco. E obrigado pela tua/vossa força neste momento. Beijinho